DEZ músicas fundamentais para a história da axé music

Porto Alegre, Brasil
Por Fernanda Oliveira e Lucas Cunha.

Em 1985, o baiano Luiz Caldas lançou uma canção chamada "Fricote", que tinha uma levada pop, mas era também fortemente influenciada pelo ritmos africanos mais tradicionais da Bahia. Para os especialistas, nascia ali o que depois se chamaria de axé music, gênero que, portanto, comemorou 30 verões no ano passado. Arrebanhando amor e ódio, o gênero evoluiu nas últimas três décadas incorporando quase tudo o que viu pelo caminho, desprendeu-se da sua região original e ganhou as rádios (em grande volume!), sobretudo nos anos 90. Se a ideia aqui fosse listar os grandes sucessos da axé music, aliás, a tarefa seria extremamente difícil de resolver em uma lista enxuta. No entanto, fazer um apanhado histórico facilita as coisas, porque há canções que se destacam claramente na trajetória do gênero, seja pela influência que tiveram para o cenário do axé, seja pela relevância que tiveram sobre a cultura popular da época e sobre outros estilos musicais que vieram depois. Dá pra imaginar o disco Roots, do Sepultura, em um mundo sem o balacobaco de Carlinhos Brown? Com certeza, a seleção a seguir vai surpreender você.



1. "ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO" - CAETANO VELOSO

Em primeiro lugar, é importante registrar que nada surge sem vir de algum lugar. Essa música de Caetano Veloso, de 1969, conseguiu não só captar o som do trio elétrico (invenção da dupla baiana Dodô & Osmar), como também foi uma antecipação do caminho festivo que a música baiana tomaria em maiores proporções duas décadas mais tarde. Além disso, a canção serviu para popularizar o termo trio elétrico em todo o país, apresentando ao grande público talvez o maior símbolo do gênero ainda hoje.


2. "FRICOTE" - LUIZ CALDAS

Depois do prelúdio de Caetano, Luiz Caldas deu o pontapé inicial na coisa em 1985. O termo axé music, no entanto, só seria inventado dois anos mais tarde pelo jornalista de formação roqueira Hagamenon Brito, que passou a usar o rótulo para tratar de artistas como Luiz, Sarajane, Chiclete com Banana, entre outros. A ideia do jornalista era misturar o substantivo "axé" (energia, força ou poder, em idioma iorubá) com a grafia inglesa "music" para, muitas vezes de forma depreciativa, abordar a nova música baiana que surgia influenciada pelas raízes locais e permeada pela música pop estrangeira.


3. "WE ARE THE WORLD OF CARNAVAL" - DIVERSOS ARTISTAS

Sim, a axé music tem a sua "We Are the World". Em 1988, o publicitário Nizan Guanaes (que é baiano) resolveu fazer uma música para ajudar as obras de Irmã Dulce e, para isso, convocou uma série de artistas locais em evidência na época - alguns deles viriam a estourar nacionalmente anos depois, o que fez de Nizan um dos grandes padrinhos do axé no país. Daniela Mercury, Ricardo Chaves, Margareth Menezes, Durval Lelys (vocalista do Asa de Águia) e Lazzo estão entre os artistas que cantam na versão original da música, que depois ganhou diversas releituras e ainda hoje é um grande sucesso quando tocada no carnaval de Salvador.


4. "THE OBVIOUS CHILD" - PAUL SIMON

Se você acha estranho estar lendo sobre o axé há mais de dois minutos, sinta-se confortável por saber que um dos maiores gênios da música norte-americana não só leu como se apaixonou e gravou música baiana. Essa música gravada pelo astro pop Paul Simon em 1990 foi responsável por apresentar ao mundo o som do Olodum e, por tabela, legitimar o som percussivo baiano, que também é incluído no balaio do que é considerado axé music no Brasil e no exterior. Anos depois, Michael Jackson também gravou com o Olodum a música "They Don't Care About Us", mas Simon foi o primeiro a incluir a percussão baiana no pop-rock internacional, universalizando o Olodum e sua casa: o Pelourinho.


5. "O CANTO DA CIDADE" - DANIELA MERCURY

Nos anos 90, após o sucesso e súbito sumiço da lambada, todo gênero que surgia no horizonte era logo tratado como a lambada da vez. Mas aí essa música de Daniela Mercury, de 1992, definitivamente mostrou ao país que as trilhas do carnaval de Salvador não eram apenas moda. Daniela, considerada a Rainha do Axé, resumia bem tudo o que a Bahia já tinha produzido anteriormente, aliando a isso um forte acento pop, muito baseado no som do Olodum e dos blocos afro-baianos, trazendo ainda as danças afro para as suas apresentações ao vivo.


6. "BEIJA-FLOR" - TIMBALADA

Carlinhos Brown talvez seja o principal compositor da música baiana pós-axé. Ele estava presente, como instrumentista e cantor, já nos primórdios do gênero, fosse tocando na banda de Luiz Caldas ou mesmo compondo para Caetano Veloso o axé "Meia Lua Inteira". Mesmo assim, sua principal criação ainda é a banda Timbalada, que revelou o Candeal (bairro de Salvador onde o músico nasceu) para todo o mundo, especialmente para a Espanha, onde Brown tem grande popularidade e é conhecido como Carlito Marrón.


7. "PAU QUE NASCE TORTO/MELÔ DO TCHAN" - GERA SAMBA

Para o sul-sudeste, tudo que seja música baiana de carnaval é axé. Por isso, o pagode baiano, que estourou nacionalmente nos anos 90 com o Gera Samba (que depois virou É o Tchan devido a uma briga judicial), acabou também incluído dentro do fenômeno axé music. Tanto que, nos dias atuais, ainda é lançada anualmente uma coletânea chamada Axé Bahia, que mostra, de forma estereotipada, uma bunda na capa, simbolizando dançarinas como Carla Perez e Scheila Carvalho, que ganharam fama nacional e deram o tom sensual de grande parte das composições do pagode baiano naquela década.


8. "LIBERAR GERAL" - TERRA SAMBA

Surgido no rastro do Gera Samba (com um integrante que saiu dessa outra banda, inclusive), o Terra Samba ganhou grande fama nacional em 1997 com o disco Ao Vivo e A Cores, que teve "Liberar Geral" como single. Segundo matéria publicada na revista Superinteressante, esse é o décimo disco brasileiro mais vendido de todos os tempos e, por ser o único baiano na lista, consequentemente é o álbum baiano mais vendido de todos os tempos, com quase 2,5 milhões de cópias comercializadas. Nada mau!


9. "FESTA" - IVETE SANGALO

Talvez um dos últimos grandes momentos da axé music, "Festa", sucesso do início da carreira solo de Ivete Sangalo (ex-banda Eva), foi o hino do pentacampeonato mundial conquistado pela Seleção Brasileira em 2002, inclusive sendo entoado pelos jogadores após o título, em imagens captadas pelo mundo inteiro. A canção também representou a força da carreira de Ivete, que se tornou depois a artista de maior sucesso da axé music, sendo, nos dias atuais, uma das poucas artistas baianas que ainda conseguem emplacar sucessos nas rádios de todo o páis.


10. "RAIZ DE TODO BEM" - SAULO FERNANDES

Nos últimos anos, a axé music passa por uma crise de popularidade e criatividade. Com pouca renovação e com poucos sucessos nacionais, o gênero vem perdendo relevância para outros estilos, em especial para o sertanejo. A discussão atual na Bahia é sobre qual será o caminho que o gênero tomará nos próximos anos. Uma das apostas na tentativa de renovação é o cantor Saulo Fernandes (outro ex-cantor da Banda Eva, assim como Ivete Sangalo). Em 2013, Saulo, em carreira solo, lançou a música "Raiz de Todo Bem", que aposta no resgate da identidade afro, além de funcionar como uma espécie de hino comemorativo ao que tudo se fez pelo estilo até agora. Se a renovação vai dar certo, não se sabe. Sabe-se apenas que regionalmente a música pegou e foi até usada em um comercial da prefeitura de Salvador que comemorou os 30 anos do axé em 2015.

Vamos seguir acompanhando para ver se vai se espalhar novamente.

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