Eu vejo o futuro repetir o passado

Porto Alegre, Brasil
Você abre o seu portal de notícias favorito, enxerga uma foto enorme de Axl Rose, uma manchete sobre o impeachment e uma chamada para comprar a revista Playboy da Luana Piovani. Você já acha que está nos anos 90 quando uma notícia tímida no canto da tela completa a sensação, avisando que as vendas de vinil cresceram 30% nos Estados Unidos ao longo do último ano - mais de 21 milhões de unidades vendidas, segundo a Forbes. Que o mundo da música esteticamente gira e retorna às mesmas tendências, todos já estávamos carecas de saber – e as ombreiras oitentistas de Lady Gaga já deixavam claro, mas a retomada de formatos vintage de distribuição fonográfica já é um fenômeno a parte na história da música, porque mídias como o vinil e o K7, que sempre sobreviveram como itens cult, agora invadem o mainstream e se apresentam, inclusive, como alternativa mercadologicamente rentável. Esses dados me intrigaram, então fui atrás de atores deste processo para entender o que de fato anda ocorrendo e o que podemos esperar desta onda em território brasileiro.

Vinil e cassete invadem o mainstream e se apresentam como alternativa mercadologicamente rentável

A fábrica dos sonhos na Barra Funda

O distrito da Barra Funda em São Paulo sempre foi conhecido por abrigar grandes prédios corporativos. É lá que está a sede da Rede Record de Televisão, de onde se enxerga o prédio da PwC, uma das maiores empresas de consultoria do mundo. É nesse distrito também que o músico e DJ Michel Nath organizou as máquinas do que ele chama de "fábrica dos sonhos": a segunda fábrica de vinis da América Latina, operando a partir da revitalização de sete prensas industriais que no passado foram utilizadas pela gravadora Continental. A Vinil Brasil, como foi batizada pelo seu mentor, vem para competir com a gigante Polysom, pertencente hoje à Deckdisc. No entanto, o aparato recém-restaurado de Michel mira em um mercado que a concorrente, revitalizada em 2008, ainda não conseguiu suprir: o mercado de novos artistas. Segundo Michel, a cara produção dos vinis acaba muitas vezes limitando a mídia vintage aos artistas de maior poderio financeiro; e é justamente esta a lógica que o novo negócio da Barra Funda pretende reverter. Segundo aponta Michel, há espaço para a construção de uma indústria acessível e autossustentável do vinil no Brasil.

Pesquisa realizada pela RIAA aponta que os lucros em vendas de vinil renderam mais do que o YouTube, a versão gratuita do Spotify e o VEVO juntos nos EUA de 2015.

Ouvir um empresário sonhador falar sobre vinis em meio a máquinas que foram tecnologia de ponta na década de 80 poderia sugerir que tudo não passa de um sonho saudosista, mas os números que vêm do exterior mostram que Michel pode estar sendo mais antenado do que utópico.

A Forbes noticiou recentemente que os Estados Unidos estão vivendo um "vintage boom". Os registros de pessoas jurídicas no país apontam para um crescimento de empresas especializadas na prensagem de vinis. A distribuição vintage, digamos assim, abriu um espaço de mercado importante. Um dos itens musicais mais vendidos por lá ao longo do ano passado foi a trilha sonora de Guardiões da Galáxia em K7 e uma pesquisa realizada pela RIAA chegou a apontar que os lucros em vendas de vinil renderam mais do que o YouTube, a versão gratuita do Spotify e o VEVO juntos nos EUA de 2015.



O vinil de 25, de Adele: 116 mil cópias vendidas somente nos Estados Unidos.

O aquecimento desse sub-mercado logicamente chamou a atenção das grandes gravadoras, que passaram a investir pesado na produção de mídias tradicionais. De uma hora para outra, as fábricas de vinil e de fitas congestionaram-se produzindo colecionáveis para gente como Arctic Monkeys, Taylor Swift e Adele. A guinada do mercado, no entanto, não serviu para retirar as máquinas da imobilidade, porque elas sempre estiveram operando de alguma forma. Produzindo em menor volume e tratando de artistas bem menos conhecidos, as fábricas de material musical vintage até então eram território de um público alternativo que, à sombra da grande mídia, nunca parou de consumir esse tipo de produto.

"O que mudou foi a quantidade"

"A nossa ideia é trabalhar oferecendo a produção física de músicas colecionáveis, algo que sempre foi uma das minhas paixões", explica Antônio Augusto, fundador da HBB, gravadora independente que tem como foco principal artistas de estética punk e hardcore. “Nossos dois primeiros lançamentos foram, respectivamente, em CD e vinil 7. Mas, mesmo com a produção física sendo o nosso principal objetivo, nunca deixamos de lado a distribuição digital dos discos que lançamos. Trabalhamos com essa mescla.”

"Os fãs nunca deixaram de consumir produtos fonográficos de seus artistas favoritos. O que temos agora é um aumento dessa procura que, para nós, sempre existiu."

Fundada em São Paulo em meados de 2011, fruto da paixão de Antônio por discos e encartes, a HBB rapidamente se tornou referência na distribuição de formatos tradicionais, e se manteve na ativa com consistência mesmo antes da atual onda de popularidade destes itens clássicos. “Os fãs nunca deixaram de consumir produtos fonográficos de seus artistas favoritos”, contou o fundador da gravadora. "O que mudou foi a forma e a quantidade consumida, que hoje é bem maior, com os nossos números dobrando a cada ano”, comenta antes de salientar que as cifras brilhantes exaltadas pela grande mídia, sempre na casa dos milhares, estão longe de ser a realidade do meio alternativo brasileiro. Há um espaço para a venda de itens vintage de artistas menos conhecidos, mas este é um mercado que precisa ser visto com cautela, porque todas as pesquisas de adesão do público até agora focaram no mainstream e nunca olharam para este fã de artistas menos óbvios, que tem um perfil comportamental muito diferente. O público é atípico e os produtores lidam com recursos distantes da realidade norte-americana.

Crucificados pelo Sistema, do Ratos de Porão: disco de 1984 foi relançado nacionalmente em 2016 pela HBB em parceria com as gravadoras Läjä Records e Bruaki

Crucificados pelo Sistema, do Ratos de Porão: disco de 1984 foi relançado nacionalmente em 2016 pela HBB em parceria com as gravadoras Läjä Records e Bruaki.

Pergunto sobre as variáveis negativas em questão quando as gravadoras menores trabalham com estes formatos menos convencionais atualmente. Antônio então explica que, para as gravadoras de menor porte, sem a estrutura e os investimentos das grandes marcas norte-americanas, muita coisa é diferente e desafios como a dificuldade logística de distribuição influenciam as vendas até mais do que a popularidade do artista trazido no material. Parece lógico, mas é importante frisar: o material vintage da Adele não bate recordes só por ser prensado em vinil ou por trazer ela na capa, mas também porque a sua gravadora traz consigo uma série de mecanismos que permitem, além da superexposição da artista na mídia, também a chegada de seu material em inúmeros pontos de venda, sendo o formato do vinil apenas um detalhe secundário no sucesso de vendas da cantora.

A mesma dificuldade logística, que aparece como desafio na distribuição, envolve ainda a produção do vinil e do K7, que hoje é concentrada na mão de poucos fabricantes, obrigando até os menores produtores a garimparem heroicamente em busca de novos contatos para driblar a demora natural das produções e os preços elevados gerados por essa escassez de mão de obra. Hoje, há apenas uma fábrica de vinis no Brasil operando em pleno vapor, o que acaba congestionando as linhas de produção e alargando os prazos de lançamento. Para o K7, a situação não é muito diferente, por isso a HBB tem preferido buscar por parceiros no exterior. “Existem novas possibilidades de produção desses dois formatos a caminho, mas, por enquanto, ainda estamos presos à poucas opções.”

Da Marvel para o mundo

Não é de hoje que o cinema influencia a indústria da música. Aliás, desde a profissionalização/industrialização da música e do cinema que a sétima arte insiste em sugerir os rumos da segunda. Foi assim quando o filme A Hard Day's Night jogou para o alto uma pedra que acabou caindo no chão em forma de beatlemania, e a experiência se repetiu ao longo das décadas até que os anos 80, especialmente nas figuras de Prince e Michael Jackson, tratassem de misturar tudo de vez, criando extensões visuais para discos que foram vistos e ouvidos à exaustão. Nos anos 2000, a história se repete. Na esteira dos filmes blockbusters que impulsionaram a venda de quadrinhos, o K7 foi novamente impulsionado ao mercado fonográfico de grande porte a partir do sucesso do filme Guardiões da Galáxia (2014).

Em cena bastante comentada, o protagonista Peter Quill chocou o mundo ao dirigir a sua nave ouvindo uma fita. Os estranhamentos da geração iPod e os urros da geração 90s diante daquilo fizeram a Marvel entender que havia ali espaço para um produto derivado. Semanas depois, estava no mercado a trilha sonora do filme – detalhe: em formato K7. E então, o que era um delírio saudosista para muitos se revelou também uma experiência mercadologicamente viável. A fita da Marvel apareceu timidamente na lista dos itens musicais mais vendidos em algumas prateleiras, foi sendo consumido por diferentes públicos e, em janeiro de 2016, alcançou a marca de 43 mil cópias, animando artistas como o Metallica a investirem novamente no formato que estava dado como morto pela grande indústria.

Trilha-sonora do filme Guardiões Da Galáxia em K7

Trilha-sonora do filme Guardiões Da Galáxia em K7: 43 mil cópias que balançaram o mainstream norte-americano.

O mainstream comprovou então o que o underground já havia percebido há alguns anos: a dominância do digital, embora seja muito sólida, não é um monopólio. Assim como os livros impressos sobrevivem à existência de kindles, e-books e PDFs, os formatos de reprodução física seguem tendo algum espaço no mercado por algum motivo. Antônio, da HBB, chegou a comentar na nossa entrevista que acredita no “charme próprio de cada mídia”, discurso que é repetido pelos artistas que sempre gostaram do formato K7, independente do que dissessem a Forbes, o mercado e as vendas.

Depois do sucesso do K7 da Marvel, o mainstream notou, definitivamente, que o digital pode conviver com as mídias físicas. Basta enxergar além do senso comum.

Alexandre Sesper, vocalista do Garage Fuzz, é um dos grandes entusiastas do formato K7 no Brasil. Ele lembra, no entanto, que acostumar-se com a sonoridade do K7 não é tarefa fácil para quem se amoleceu diante do mp3. "O som é muito rústico. Não teve mudança alguma desde os anos 80. É a mesma fita de sempre", lembra ele, batendo na tecla da qualidade sonora, que tem sido um argumento muito usado pelos adoradores do primo rico, o vinil. No K7, segundo Alexandre, os atrativos são outros. "O que chama a atenção na fita é o conceito, não a qualidade do som. O formato mp3, por exemplo, não tem um valor emocional. Já a fita é um formato bacana... a coisa do vintage."

Durante a entrevista, Alexandre, que também é dono da gravadora paulista Outprint, contou o que levou a sua empresa a investir mais no K7 ao longo da última década. Ele sempre foi um apreciador do formato e se apropriou das fitas para lançar os materiais de sua banda, mas virou um “empreendedor da fita” após um acontecimento muito interessante ocorrido no exterior.

"Em 2010, estive em um festival da Burger Records na Califórnia e fiquei muito feliz de ver uma barraquinha com mais de quatro metros de largura cheia de fitas pra vender. Aquilo despertou o meu interesse em investir nisso". Comparei a motivação de Alexandre com a motivação do Metallica e questionei se não é isso que faz o underground ser historicamente mais inovador que o mainstream: enquanto a banda de Lars Ulrich entendeu a viabilidade do K7 após assistir à venda de 43 mil cópias do produto da Marvel, para Alexandre, uma simples banca de quatro metros em um evento alternativo já foi inspiração o suficiente. Enquanto um dos lados precisa apenas de inspiração, o outro precisa de uma certeza de que aquilo vai dar certo. Realmente, entre ser vanguarda e seguir a vanguarda há uma diferença gritante, e o abismo entre essas duas coisas quase sempre é uma questão de sensibilidade, coragem e mão na massa.

Mas e então...

Ao que tudo indica o tal “vintage boom” anunciado pela Forbes no início de 2016 deve dar mais alguns passos ao longo dos próximos anos. Na grande indústria, a produção destes materiais clássicos será incentivada pelo sucesso recente de produtos do tipo e as grandes gravadoras, sedentas em retomar a venda física perdida após a popularização do streaming, deverão continuar investindo pesado especialmente no vinil, que é mais caro, possui mais fabricantes no mercado e tem uma melhor qualidade sonora em relação ao K7.

O mesmo streaming que faz as grandes gravadoras entrarem de corpo e alma na produção vintage é o mesmo que leva os pequenos produtores e artistas independentes a seguirem produzindo estes materiais clássicos. Artistas envolvidos com o cenário independente brasileiro mais de uma vez citaram a importância da distribuição digital, mas relataram que a frieza dos bytes muitas vezes transforma a música em algo sem valor emocional. Menos importados com os números, os artistas independentes apostam na mídia vintage como meio para devolver a "alma" à música de seu tempo. Reparem que para underground e mainstream a fé no vintage é a mesma, mas com objetivos muito distintos. Nada de novo sob o sol.

Para os envolvidos em solo brasileiro, o aumento na procura por este tipo de material no território nacional não chega a ser um “boooom”. Está mais para um simples aumento mesmo. É que o mercado brasileiro tem as suas peculiaridades: aqui, as grandes gravadoras nunca foram adeptas da pesquisa de tendências, os pequenos produtores em geral sempre estiveram mais preocupados com a qualidade do que com a quantidade e o consumidor de música, também em geral, não está acostumado a pagar para ouvir. Sobre esta última afirmação, basta notar a forma como os serviços free de distribuição de música têm a preferência do consumidor mesmo entregando qualidade muito suspeita. Nisso, uma pesquisa recente do selo gaúcho Honey Bomb Records, ainda que realizada com uma amostra pequena de consumidores, é reveladora:

Tidal, Google Music e Apple Music (pagos) raramente foram citados pelos entrevistados como alternativa para ouvir música na web. A quantidade de usuários vai crescendo nos serviços à medida que tais plataformas oferecem a possibilidade de planos gratuitos, com SoundCloud, Spotify e Bandcamp conquistando maior número de adeptos. Na liderança, isoladíssimo com 91% de aceitação, está o YouTube, o único dos serviços listados que é totalmente free.
Fonte: Você e a Música Digital (Honey Bomb Records, 2016)


Isso significa que o brasileiro nunca vai voltar a comprar música física em grande volume? Não necessariamente, mas isso explica por que o consumo de materiais como o vinil e o K7 são muito menores aqui do que em outros países: esse tipo de compra é praticado no Brasil por aficionados da música, e não por simples ouvintes, como ocorre em outros lugares do mundo. No Brasil, pelo menos por enquanto, só comprará música quem gostar MUITO de música, e isso manterá os números de vendas mais tímidos, evoluindo em proporção diferente do que ocorre no exterior.

Ninguém imaginaria que o K7 viveria para ver a morte da EMI. Portanto, muita coisa ainda pode acontecer.

No entanto, as movimentações dentro da indústria da música são cada vez mais imprevisíveis. No final dos anos 90, ninguém imaginaria que os modelos tradicionais de gravadora sucumbiriam na era digital. Ninguém também imaginaria que o K7 viveria para ver a morte da EMI. Portanto, muita coisa ainda pode acontecer. Para concluir, pergunto o que podemos esperar dos próximos anos:

"Acredito que a venda de álbuns físicos - vinil, K7 e CD – vai aumentar, mas dentro da realidade atual da nossa sociedade", prevê Antônio da HBB. "Os formatos físicos e digitais, juntos, provavelmente gerarão receitas o suficiente para sustentar artistas e gravadoras de pequeno e grande porte".

Michel, da Vinil Brasil, em meio às máquinas que sustentam seus planos, aposta em tempos de novo comportamento do consumidor. "Estamos vivendo um momento único na música brasileira, quando uma geração que cresceu ouvindo todo tipo de música - de todas as épocas, de todos os lugares - graças à internet, está chegando à maturidade", conta o artista/empresário. Até lá, aconselho que reparem nas manchetes e até tirem o pó da vitrola, mas que tenham cuidado com os números porque ao sul do Equador até o vinil e o K7 se afinam em outro tom.

__

Carlos Viegas é publicitário, pesquisador cultural e mestrando em Ciências da Comunicação pela UNISINOS. Já trabalhou para a frente digital do Grupo Abril, liderou ações de comunicação estratégica para artistas da Som Livre e é editor do New Yeah desde 2013.

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.