No Wave: o pessoal que já achava o punk brega em 1976

Porto Alegre, Brasil
Por André Barcinski.

Faça uma pesquisa rápida na web pelo termo "punk rock". Seja lá qual for o buscador que você decidir utilizar, a definição encontrada será quase sempre a mesma: um movimento musical nascido em meados dos anos 70 que combatia a caretice do rock corporativo e que acabou abrindo caminhos para toda uma geração. O que poucos sabem é que, já em 1976, havia gente questionando a caretice do próprio punk rock. Para alguns, as jaquetas de couro dos Ramones representavam uma melancólica viagem de volta aos anos 50, e os riffs dos Sex Pistols eram apenas Chuck Berry tocado em 45 rpm. O epicentro da turma de inconformados era o "lower east side" (sudeste) de Manhattan, Nova York, de onde emergiu No New York, o disco que melhor representou o pensamento desse pessoal.



Na época, o sudeste de Nova York era uma região abjeta, tomada por prédios abandonados e habitada por artistas plásticos, músicos, escritores, atores, traficantes e perdidos em geral.

Quem também estava por lá na época era Brian Eno, ex-Roxy Music. Uma das mentes mais brilhantes e visionárias da música pop, Eno acabara de produzir um LP do Talking Heads, mas tinha ficado tão impressionado com a riqueza musical nova-iorquina que acabou estendendo a visita por quase um ano. Os clubes da cidade à época fervilhavam de jazz, world music, calypso, disco, funk e música de vanguarda. Tudo isso se refletia na efervescente região do "lower east side", onde muitos jovens, vindos de escolas de cinema e de teatro, organizavam uma espécie de "cena alternativa", que ganhou a alcunha de Movimento No Wave. Inspirado pelo que estava vendo e ouvindo, Eno decidiu produzir um LP com as melhores bandas locais. O resultado foi No New York, lançado em 1978.

O disco reúne quatro bandas - James Chance and the Contortions, Teenage Jesus and the Jerks, Mars e DNA -, que contribuíram com quatro faixas cada.

Das quatro bandas, a mais comercial - se é que dá pra usar esse termo - era a James Chance and the Contortions. O James que dava nome à banda era um bom saxofonista (!), tinha carisma, fama de maluco, havia estudado em conservatórios durante toda a vida e tinha uma forte formação na black music. No palco, assumia o microfone e às vezes soprava seu sax em riffs punks (!!), simulava ataques esquizofrênicos e, não raramente, atacava o público (!!!).

James Chance(ACIMA) A formação clássica do James Chance and The Contortions: James é o vocalista, ao centro, em rara cena de aparente controle emocional.

Outra figura essencial para a cena era a cantora, poeta, escritora, artista plástica e atriz Lydia Lunch, que comandava o Teenage Jesus and the Jerks. Imagine PJ Harvey cantando hardcore e você começa a ter uma ideia do som da banda. Some a isso uma boa dose de niilismo e desesperança ("as folhas estão sempre mortas / as portas estão sempre fechadas / o lixo grita aos meus pés") e você entenderá perfeitamente o clima de "Burning Rubber", uma das melhores faixas do disco.

Lydia Lunch
(ACIMA) Lydia Lunch no auge da forma: não sabemos de onde vem o visual indie dos anos 90, mas fica aqui uma forte suspeita.

Chegamos então ao Mars, um quarteto liderado pelo guitarrista e vocalista Summer Crane. Ouvir o Mars não é tarefa fácil, embora as recompensas sejam muitas. A banda aparece com um som lento, quase se arrastando. Lembra uma espécie de tortura proto-industrial, com guitarras simulando efeitos eletrônicos e barulhos inclassificáveis. Talvez a tarefa fique mais fácil se você souber que a banda serviu de inspiração para o Swans e o Ministry.

No New York termina com o DNA, um trio liderado por Arto Lindsay, um fã da Tropicália que passou anos vivendo no Brasil por conta de uma aventura dos pais, que eram missionários católicos. No som, o grupo de Arto buscava um minimalismo extremo, com guitarras esparsas e vocais às vezes gritados, outras vezes sussurrados. O cultuado crítico Lester Bangs certa vez descreveu o som da banda como "um barulho pavoroso".

Mais do que um grande disco, No New York representou um estado de espírito. Nenhuma das bandas veio a ter uma carreira de sucesso depois, mas o inconformismo das canções registradas por Brian Eno inspiraram muita gente, com ecos sendo ouvidos até hoje na obra de Sonic Youth, Flaming Lips, Rapture e LCD Soundsystem.

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