Outlandos D'Americas: o disco que apresentou a América Latina ao Brasil

Porto Alegre, Brasil
No final dos anos 90, a América Latina era mais distante do Brasil do que se possa imaginar. Sem a web para encurtar caminhos, quase toda a informação que chegava ao brasileiro médio dependia dos grandes conglomerados de comunicação, que priorizavam a produção vinda dos Estados Unidos e da Europa. O espanhol era praticamente uma língua alienígena que volta e meia tentava se comunicar conosco através de uns zumbidos estranhos. O início da crise econômica argentina, por exemplo, não chegou a ser notícia muito tratada pela mídia brasileira, e dá pra imaginar que, pelos mesmos motivos, muitos artistas latinos que arrebentavam mundo afora também não pintavam muito nas rádios daqui. Por isso tudo, o lançamento nacional do disco Outlandos D'Americas em 1998 foi acompanhado com bastante curiosidade no Brasil. Nele, diversos artistas latino-americanos, quase todos desconhecidos do público brasileiro, recriavam canções da banda inglesa The Police e as cantavam em espanhol.

Outlandos D'Americas

O momento de maior aproximação do Brasil com a cultura musical latina na década de 90, no entanto, começou meio torto. Ainda nos anos 80, o inglês Miles Copeland, irmão do baterista Stewart Copeland (ex-Police), havia se casado com uma argentina e, a partir disso, começara a se interessar pela música produzida no terceiro mundo. Depois de comprar muitos discos de rock e ska cantados em espanhol, o sujeito um dia resolveu reunir os nomes mais interessantes daquela grande cena em um disco tributo à banda de seu irmão.

Um produtor inglês que gostava de música latina e a discografia do Police à disposição: a situação perfeita para o nascimento de um dos grandes discos dos anos 90. 

O disco é bem mais uma clara junção de oportunidades e bem menos uma grande sacada artística: o cara simplesmente gostava da música latina e tinha o caminho livre para usar a discografia de uma grande banda inglesa sem se estressar muito com os royalties. O curioso é que a mistura, surgida de um raciocínio aparentemente burocrático, deu muita liga e o produto artístico final foi praticamente brilhante.

A percussão, o swing e o ritmo dançante sempre foram os principais pontos fortes da música latina mais tradicional. Sob esta ótica, nenhuma banda inglesa poderia ser mais latina do que o Police. O baterista Stewart Copeland mais de uma vez foi citado como referência por instrumentistas de dub e a guitarra econômica e cravada de Andy Summers sempre esteve a um passo do ska. Nada mais natural que as canções do grupo soassem muito bem sob a tutela dos principais nomes emergentes da música mexicana, porto-riquenha, argentina etc. O disco era um casamento perfeito.

Em meio a tantos desconhecidos, o tributo era aberto justamente por um dos artistas mais familiares ao público brasileiro na época. Gustavo Cerati, ex-vocalista do grupo argentino Soda Stereo, dividiu com o próprio Andy Summers os trabalhos em "Traeme la Noche", versão latina para o clássico "Bring on the Night". Cerati havia recém saído de sua ex-banda, com a qual ficou conhecido por produzir um som muito mais próximo da cultura europeia do que da argentina. No tributo, sua faixa é a menos latina de todas as gravadas, e talvez esteja na abertura justamente por isso. Dali pra frente, as cucaratchas cantariam soltas.



A segunda faixa, que acabou se tornando a mais famosa do disco no Brasil, era obra dos brasileiros do Skank. O misto de guitarras mordidas, metais e tambores de "Estare Prendido en Tus Dedos" ("Wrapped Around Your Fingers") era um retrato do que abanda produzia na época em sua discografia regular, mas, na obra orquestrada por Miles Copeland, o verniz radiofônico/vendedor do grupo mineiro aparecia substituído por uma leveza que fez muito bem à banda. Cantando The Police, o Skank fazia muito mais sentido do que cometendo playbacks no Faustão.



A inclusão da banda brasileira no tributo, inclusive, é um fenômeno interessante de se analisar sob diversos aspectos. Havia por parte dos produtores uma vontade de unificar a América Latina naquele tributo e também o desejo de fazer do disco um case de boas vendagens em todo o continente. E isso incluía o Brasil. Essa preocupação praticamente obrigou a inclusão de uma banda brasileira no casting - e os produtores sabiam que incluir uma banda brasileira da última geração no trabalho significaria mostrar ao mundo latino uma banda que lhe fosse totalmente desconhecida.

Era um impasse que o Skank estava ali simbolizando: o que era conhecido na América Latina não era conhecido no Brasil e vice-versa. A distância cultural entre o Brasil e seus vizinhos ficou bem retratada nas capas que Outlandos D'Americas adotou em cada localidade onde foi vendido: o disco foi distribuído em todo o continente com uma única capa e só no Brasil teve a sua arte alterada para melhor alardear a presença da banda mineira em seu elenco, como clara estratégia de venda, já que quase todos os nomes que recheavam o disco, artistas continentalmente aclamados, eram talentosos anônimos para o público nacional.



A capa que rodou a América Latina à esquerda / a versão brasileira à direita: para o restante do continente, a banda brasileira que havia vendido mais de 2 milhões de cópias no Brasil em 1997 era uma inclusão estratégica, sequer citada na capa; para os brasileiros, praticamente só a banda brasileira importava.

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Voltando ao restante do disco, as canções mais interessantes, lógico, eram aquelas que melhor conhecíamos na versão original. "Message in a Bottle" virou "El Message en la Botella" nas mãos da Ekhymosis, uma das mais importantes bandas do rock colombiano, que caprichava no peso mas que não ignorava o valor de um bom ziriguidum. "Every Little Thing She Does Is Magic" virou "Todo Lo Que Él Hace" na voz da versátil cantora Soraya, em uma das poucas faixas que não foram traduzidas para o espanhol ao pé da letra.



O disco, ao lado de Clandestino (Manu Chao, 1998), marcou profundamente o primeiro grande momento de aproximação dos ouvintes brasileiros com uma música latina distante dos refrões grudentos de Shakira em "Estoy Aquí" e do requebrado comercial de Rick Martin em "Maria", ambos hits no Brasil durante a segunda metade da década de 90. O som áspero e fino de Outlandos D'Americas também estava longe das trilhas românticas setentistas de Julio Iglesias que embalavam os realities de namoro do SBT. Por isso, o disco lançado por aqui pela gravadora Ark 21 também ajudou a quebrar alguns clichês e preconceitos que havia sobre a música cantada em espanhol no Brasil. E esse choque no status quo foi importante para introduzir um período de aproximação do Brasil com as suas culturas vizinhas, em uma conexão que alcançaria o seu auge no desenrolar da década seguinte.

Tantos marcos fazem deste disco uma das mais importantes experiências de integração da cena musical latina até hoje. E, ironicamente, tudo só existiu porque teve uma mãozinha inglesa no meio do caminho.

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