Pet Sounds, obra-prima dos Beach Boys, já tem 50 anos

Porto Alegre, Brasil
Faz 50 anos que o rock convive com um delicioso incômodo: um dos maiores discos produzidos pelo gênero ao longo de sua gloriosa história foi lançado por uma banda que, até tal lançamento, sequer era considerada uma "banda de rock". Surgidos na Califórnia e popularizados em todo o litoral norte-americano no período anterior à invasão britânica (pré-1964), os Beach Boys se consolidaram como um simples conjunto comercial que produzia a trilha sonora perfeita para surfistas bem nascidos que só queriam tomar um milk shake na companhia de suas garotas. Mas, provocados pela psicodelia inglesa, os Meninos da Praia foram pirando aos poucos. Passaram a produzir algo parecido com rock na metade daquela década, evoluíram rápido e, em 16 de maio de 1966, lançaram Pet Sounds: simplesmente o disco de rock experimental mais influente dos anos 60 (inclusive na opinião de Paul McCartney).

Pet Sounds, obra-prima dos Beach Boys, já tem 50 anos

Entre os figurinos praianos do início da carreira e os animais faceiros na capa de sua maior obra, muita coisa aconteceu com a banda. A principal delas foi o contato de Brian Wilson, líder dos BBs, com o disco Rouber Soul, dos Beatles. Até então convencido de sua genialidade californiana, o então jovem Brian percebeu que do outro lado do oceano havia gente mais genial do que ele, e isso o levou a trocar a maconha pelo LSD e a praia pelos estudos de sonoridade. Depois, ele sugeriu que o grupo parasse de fazer shows para se dedicar ao aperfeiçoamento de suas gravações. Em um terceiro momento, Brian cortou toda a liberdade criativa dos outros integrantes da banda, passou a compor e produzir tudo sozinho, isolou-se e trabalhou por seis meses, entrando em contato com os colegas apenas para delegar tarefas. Ao final do duro processo, exausto e com a mente quase frita de tanta bala, apresentou aos integrantes da banda e aos executivos da EMI o resultado: um disco ainda sem nome, com várias camadas vocais, com poucos refrãos, com letras mais maduras e com estética nada californiana.

Reza a lenda que um dos ouvintes, naquele dia, indignado com o baixo apelo comercial da obra, teria afirmado que aquilo nem parecia música feita para humanos ouvirem. Brian concordou com a afirmação, e o conjunto de seus experimentos ganhou o nome que todos conhecemos.


Alguns humanos acabaram ouvindo

Poucos dias após o lançamento do disco, "Sloop John B", "Wouldn't It Be Nice" e "God Only Knows" acabaram caindo no gosto do público hippie, que até então ignorava a existência da banda. Os executivos da gravadora perceberam que o rentável público do surf não havia gostado do disco, mas que os movimentadores de uma ainda verde contracultura haviam se identificado com o som, gerando um bom número de vendas. Era um sucesso aquém dos êxitos obtidos pelos Beach Boys até então, mas ainda assim algo muito acima da expectativa mórbida da EMI. Com algumas semanas, Pet Sounds apareceu no Top 10 dos mais vendidos nos EUA, animando os envolvidos, que a cada dia achavam Brian mais gênio e menos louco. O sucesso maior, no entanto, veio no Reino Unido, onde o disco chegou ao segundo lugar em vendas, muito motivado por opiniões favoráveis redigidas pela crítica e pela admiração declarada de um fã notável: o beatle Paul, que foi à imprensa exaltar o disco que chegava vindo do outro lado do Atlântico.

"Um registro atemporal e uma gravação de incrível beleza e genialidade."
Elton John

Tal como Brian havia se debruçado sobre o Rouber Soul, Paul McCartney debruçou-se sobre a obra do mais novo gênio norte-americano. A ânsia de produzir algo ainda mais criativo do que Pet Sounds levou Paul a apresentar aos Beatles a ideia de um disco conceitual ambicioso. Juntos, Paul, John, George e Ringo lançariam em 1967 um tal de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Tal como cantava o Compadre Washington, depois de nove meses, Brian Wilson viu o resultado: os Beatles o haviam superado novamente, e era necessário dar o troco. Brian sentia que era o seu turno de atacar.

Como o isolamento havia dado certo na primeira vez, Brian se isolou ainda mais na gravação do disco sucessor, que ele, por algum motivo, chamava de Smile. Trancou-se em estúdio e não deixou que qualquer outro humano encostasse nas canções. Perto do fim, surtou de vez e simplesmente abandonou o projeto por não saber mais o que fazer com ele. Ao invés do material genial que era preparado até então, o que chegou às lojas foi o seu primo pobre, Smiley Smile, uma colcha de retalhos com restos do que havia no projeto original e mais algumas canções antigas regravadas. O projeto original acabou virando um hit entre pirateadores, mas foi esquecido pelos registros oficiais, o que ajudou a moldar a fama de Pet Sounds como a obra-prima do grupo sem grandes concorrências.

Por falar em pirataria, a versão bruta de Smile está no YouTube.



Smile só seria lançado mesmo em 2004 (sim, 37 anos depois!), sendo muito bem recebido, mas nem de perto arriscando o pedestal da obra-prima, já formada e cultuada por gerações. Pet Sounds, cuja genialidade comoveu até mesmo os Beatles, passou para as gerações seguintes como um dos registros definitivos dos anos 60 e transformou-se, com o tempo, em uma verdadeira enciclopédia rotineiramente consultada por todos os que fazem da arte um processo de autossuperação. Elton John, um dos mais notáveis fãs dos Beach Boys, chegou a dizer uma vez que nunca mais entrou em estúdio sem recordar das lições aprendidas no distante ano de 1966.

Não seria exagero dizer então que, de alguma forma, Pet Sounds sempre esteve presente no rock dos últimos 50 anos. E acredito que o rock dos próximos 50 vá precisar continuar lidando com isso.

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