Vou Tirar Você Desse Lugar (Tributo a Odair José)

Porto Alegre, Brasil
Odair José sempre foi um músico incompreendido. Surgiu nas FMs brasileiras no início dos anos 70 e vendeu mais de 60 milhões de discos ao longo daquela década. Eternizado como ícone brega setentista, o cantor não era reconhecido pelas gerações mais novas até 2006, quando Sandro Rogério Lima Belo, um de seus célebres fãs, decidiu agir. Dono do selo goiano Allegro Discos, ele recrutou 18 artistas da linha de frente da música independente no Brasil para regravar as 18 canções mais icônicas do seu ídolo. O resultado foi um disco criativo, diversificado e, impressionantemente, nada brega.



Paulo Miklos, dos Titãs, recebeu a missão de cantar o maior hit de Odair, "Vou Tirar Você Desse Lugar", música que também abria e dava título ao disco tributo, narrando a história de um homem que se apaixonou à primeira vista por uma prostituta. Não deu muito certo. Afundado em uma fórmula de rock sem sal, o vocalista da clássica e fundamental banda paulistana não esteve à altura do hit que lhe deram, errando inclusive a letra da canção. Depois dele, as coisas vão melhorando a cada faixa.

Revisitado por artistas como Pato Fu, Mombojó, Volver e Terminal Guadalupe,  Odair José pôde soar talentoso pela primeira vez depois dos anos 70.

Na canção, o disco realmente começa. A Suzana Flag consegue recuperar de forma bem fiel a melancolia de "Tempo Que Não Para", adicionando guitarras e violões mais ricos do que os existentes na versão original. A letra reflexiva casa bem com as vozes utilizadas e o arranjo parece ter sido feito com carinho, o que de certa forma cativa o ouvinte.

O Pato Fu, por sua vez, emprestou criatividade ao clássico "Uma Lágrima", de 1969. Analisando esta terceira faixa, temos uma pequena mostra de como as canções se transformaram quando foram registradas no tributo. Na voz de Fernanda Takai, a letra que parecia um retrato da cafonice ganhou ares quase fofos, que contrastaram perfeitamente com as guitarras e os arranjos sempre cheios de recursos empregados pela banda mineira.

Um dos grandes atrativos do disco até hoje é, de fato, a forma como as canções cresceram sob a voz dos seus novos intérpretes. Tirada a roupagem brega (que imperou não só na obra de Odair José mas também em boa parte dos artistas populares dos anos 70), as letras começaram a fazer bem mais sentido. Dá pra notar até alguma esperteza nas composições, coisa que você dificilmente conseguiria fazer ouvindo os registros originais (ou se sentiria muito culpado caso conseguisse).

"Se eu fosse uma lágrima, eu não lhe deixaria
Ficaria em seus olhos, como poesia
E todo amor do mundo seria pra nós dois
Palavras de carinho pra depois."

A banda Columbia aparece como um dos destaques do disco a bordo da faixa "Eu Queria Ser John Lennon", que narra a triste história de um homem que desejava ser o Beatle John para que, assim, pudesse ser ouvido pela mulher amada. "Eu queria ser John Lennon um minuto só, pra ficar no toca-discos e você me ouvir" é uma frase reveladora. Odair José tinha um dom quase incomparável de se colocar na condição de herói apaixonado. Nos anos 70, ele já cantava suplicando por migalhas de atenção com uma dramaticidade que nem as gerações emos mais farofeiras conseguiram superar. "Eu queria ser a verdade dos seus sonhos perdidos, assim eu teria coragem pra dizer que te amo". Odair era um cara visceral, e a nossa geração precisava saber melhor disso.



Ao longo do disco, alguns artistas parecem bem à vontade com o clima anos 70 proposto pelo tributo, sobretudo por já navegarem por essas ondas há algum tempo. Zeca Baleiro, por exemplo, é um dos filhos dos anos 70 e nunca escondeu a influência que artistas como Odair José e Raimundo Fagner exerceram sobre sua obra. Nada mais natural que a sua versão para o clássico "Eu, Você e a Praça" soasse como uma das pérolas mais espontâneas do registro.

No entanto, os artistas que soam deslocados também são um fenômeno interessante de observar. A banda Leela, por exemplo, adicionou uma boa dose de energia ao hit "E Ninguém Liga Pra Mim". Na voz da sempre impecável vocalista Bianca Jhordão, o discurso autopiedoso da letra deixa de ser choroso e passa a ser tocante, afinal, é bem mais fácil se solidarizar com Bianca do que sentir piedade de um homem barbado com cabelo semelhante ao de Dustin Hoffman no filme "Kramer vs. Kramer", com todo respeito ao visual de Odair José nos anos 70.

BIANCA JHORDÃO, vocalista da Leela: "Choro e ninguém liga pra mim". Duvido.

Outro grande ponto forte do disco é a originalidade na temática das canções, mérito total de Odair José, que sempre foi um cara muito hábil na arte de fugir do óbvio. A banda pernambucana Mombojó, por exemplo, canta a história de um homem que interceptou a esposa chegando em casa com uma carinha de quem fez errado altas horas da noite. O grupo carioca Los Pirata entoa a história de uma mulher que parou de se cuidar e engordou bastante após o casamento. E tem coisa ainda mais criativa: o Mundo Livre SA narra a história de uma EMPREGADA que levava o FILHO DO PATRÃO para a escola e, por vergonha de assumir que era pobre, MENTIA para todos os transeuntes que o menino era seu irmão.

Se a ideia era dar uma nova percepção à obra do cantor e compositor goiano, o disco acertou em cheio. Antes de 2006, a obra de Odair José nunca havia sido registrada em um CD, e o gosto do grande público contemporâneo pela sua obra permitiu um novo gás em sua carreira. Acabou sendo justo, se considerarmos a criatividade e a habilidade pouco comum do homem com as palavras, sem muito conhecimento letrado mas sempre carregado de sabedoria popular. Nos anos 70, Odair não sabia que, ao cantar "a felicidade não existe: o que existe são momentos felizes", ele estava evocando um dos princípios básicos da filosofia racionalista. Da mesma forma, nunca imaginou que estaria cantando as letras que ilustrariam um dos melhores discos do rock brasileiro 40 anos depois.

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.