Weird. e Armaud: a nova música italiana quer ser maior do que as fronteiras

Porto Alegre, Brasil
Saindo de Porto Alegre pela Avenida da Legalidade e chegando até a BR 116, uma viagem de mais ou menos uma hora e meia levará até a cidade de Caxias do Sul, na serra gaúcha. Por lá, há uma das maiores colônias italianas do mundo. Estima-se que cerca de 30% dos quase 500 mil habitantes tenha descendência italiana, o que leva a parte mais tradicional da cidade a misturar gauchismos e italianismos em quase tudo o que faz, da gastronomia ao gestos que acompanham a fala. Do outro lado do Atlântico, a Itália oficial se comporta de maneira diferente diante das mesmas tradições; se reinventa em busca de uma identidade contemporânea distante daquilo que nos mostraram as novelas de época da Rede Globo. Na música, uma série de bandas surge apostando em estéticas menos festivas e linguagens mais globais que abrem mão até do próprio idioma nacional. As bandas italianas Weird. e Armaud, lançadas no Brasil em maio pelo selo gaúcho Ué Discos, fazem parte de um movimento que desconstrói tradições e fronteiras até então pouco desafiadas.



"A música tradicional italiana é boa, mas eu sempre me senti tocada por outros sons", conta Paola Fecarotta, guitarrista e vocalista da Armaud. Ao lado de Marco Bonini e Marco Mirk, Paola lançou no ano passado o álbum How to Erase a Plot, um compilado de canções intimistas, nubladas e repletas de ambiências. Quase o inverso da música italiana tradicional que embala as festas em altos decibéis na serra gaúcha; algo também muito distante da grande explosão vocal dos cantores líricos italianos que fizeram tanto sucesso no Brasil em outras épocas. Paola conta que, no entanto, a fuga do tradicional não é uma batalha contra o passado, é apenas a resposta da sua arte ao que ela teve como formação: "desde pequena, sempre preferi música internacional, talvez por isso o som do meu primeiro álbum esteja localizado mais ao Norte da Europa".


(ACIMA) Paola Fecarotta, da Armaud, no clipe de "patterns": aparentemente, o Mar Mediterrâneo é uma das poucas forças locais que interferem no som da banda.

A Itália está na dinâmica do mundo cultural Europeu, do qual a língua inglesa é parte fundamental, e a sua classe artística sente e se inspira nisso. Embora a música mais pop, feita para consumo interno, ainda converse com o que se produzia por lá antigamente, há uma geração de músicos e produtores independentes italianos que quer se desprender da regionalidade apostando em influências que vêm de fora das fronteiras. Nada mais natural que todos estes artistas encontrem público fora das fronteiras também. "Nós tocamos um gênero global, em uma língua global, então não podemos esperar que o nosso público venha apenas da Itália", conta Marco Barzetti, vocalista e guitarrista da Weird., pouco antes de comentar a aparição de sua banda na coletânea The Shoegaze Revolution, organizada pela gravadora britânica Ear to Ear Records.



Mais eletrificada, próxima do shoegaze, simpatizante de tiradas mais psicodélicas, a banda de Barzetti tem em comum com a banda de Paola o desejo de construir uma cena indie na região de Roma, que ainda hoje é um lugar hostil para a produção de música não comercial. "Algumas bandas surgiram durante os anos 80 e 90, mas logo desapareceram. A cena indie começou a florescer muito recentemente, então bandas como a Weird., que precisam de lugares maiores e volumes mais altos, ainda lutam para encontrar um espaço adequado". Pergunto se há condições para a construção de uma cena independente em Roma, e Barzetti responde com otimismo. "As redes sociais têm ajudado bastante, agora precisamos criar uma comunidade de fato, construir relações e lugares onde ambos, músicos e ouvintes, possam se encontrar".

A construção é utópica, mas lida com oponentes bem reais. Paola conta que "atualmente, estão tentando fechar um monte de espaços culturais independentes em Roma, o que é triste para as pessoas que passam a vida promovendo e apoiando a cultura". Tive vontade de dizer à ela que recentemente ganhamos (sem ter pedido) um presidente com métodos parecidos. Barzetti concorda que na Itália há uma desvalorização da arte como um todo. Ambos concordam novamente quando apostam no faça-você-mesmo como forma de produzir uma arte que não obedeça aos ditames do mainstream no país. Nisso, soam quase brasileiros de novo.


(ACIMA) Weird. em ação sobre palco montado ao ar livre: se não há espaço, a música independente vai lá e constrói.

Ouvir Barzetti e Paola falarem sobre a realidade cultural romana ajuda a desmitificar algumas coisas e a ratificar outras tantas. Primeiro, fica claro que, no que diz respeito às tradições, Caxias do Sul atualmente já é mais italiana do que uma boa parte da Itália. A atualidade dos câmbios culturais na era da web não se cansa de derrubar os estereótipos que os tradicionalistas tentam manter de pé. É uma luta quase sempre pacífica onde um lado quer ser global e o outro quer tudo menos isso.

Além do embate cultural que naturalmente é travado em todos os lugares do mundo, fica claro na fala dos artistas que a realidade da música independente é quase tão global quanto a estética do rock. Os desafios enfrentados por um grupo independente italiano que habita a cosmopolita cidade de Roma não são muito diferentes dos desafios enfrentados por um grupo montado no subúrbio de Fortaleza, Ceará. Talvez por isso as bandas estejam cada vez menos presas aos seus locais de origem. A chegada dos discos A Long Period of Blindness (Weird., 2015) e How to Erase a Plot (Armaud, 2015) ao Brasil em 2016 é parte de um processo de globalização da música independente que tem a solidariedade como pilar: algo como "se temos em todos os lugares as mesmas dificuldades, vamos então bolar a saída juntos".

"A Armaud é um projeto relativamente novo, então não esperávamos tantos feedbacks vindos de tantos lugares diferentes", comenta Paola. "Agora estamos trabalhando em um novo álbum e essa expansão me dá um grande entusiasmo! Mais ouvidos para alimentar!"

"Nós adoraríamos ir para a América do Norte e para a América do Sul. Quem sabe no futuro...", vislumbra Barzetti. À frente de sua banda, ele já notou que o caminho a ser percorrido vai além do seu país. "Estamos agora trabalhando duro para fazer uma turnê pela Europa. Espero que nossa música cruze as fronteiras e alcance o maior número de pessoas possível".

Acompanhe a trajetória das bandas aqui e aqui.

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