5 discos brasileiros que estão completando 30 anos

Porto Alegre, Brasil
Alguns discos vêm e vão sem deixar grandes heranças. Mas há discos que ficam e sobrevivem na memória coletiva, às vezes pelas grandes canções que traziam, às vezes por terem simbolizado um momento cultural importante e outras vezes pela simples influência que vieram a exercer sobre as gerações seguintes. O período dos anos 80 no Brasil ficou marcado pelo lançamento de diversos discos desses que nunca mais foram esquecidos e, dentro desta década, o ano de 1986 geralmente é lembrado como o ano em que tudo mudou. Em 1986, cinco bandas brasileiras resolveram colocar na rua os maiores trabalhos de sua discografia, e esses trabalhos definiram para sempre a história destas bandas e do próprio rock nacional. Cinco discos que moldaram a identidade do rock brasileiro, portanto, comemoram 30 anos em 2016.



Antes de falarmos dos discos, vale lembrar algumas coisas sobre o cenário que envolvia o rock brasileiro naquela metade de década. Em 1986, o acontecimento mercadológico da música no país foi o disco Rádio Pirata ao vivo, do RPM, que vendeu 2,5 milhões de cópias. Esse trabalho só não é considerado um marco para o rock nacional como um todo porque já no ano seguinte pouco se falava a respeito dele. As obras que começavam a marcar de fato o cenário do gênero no Brasil eram outras, de outras bandas, que vendiam bem menos, mas que exerciam maior influência sobre o público, sobre a mídia e até sobre outros artistas. Era uma nova leva oitentista que surgia impulsionada pela popularização do rock no país, ocorrida a partir do primeiro Rock in Rio em 1985. E já era uma leva diferente daquela que havia imperado durante a primeira metade dos anos 80: até o Rock in Rio, os maiores nomes do rock brasileiro eram Pepeu Gomes, Blitz, Gang 90 e Eduardo Dussek. Só de 1986 para frente foi que novos nomes apareceram com força, e seriam justamente estes novos nomes que entrariam na nossa memória afetiva como os maiores representantes daquela geração.

Selvagem (Os Paralamas do Sucesso)

Os Paralamas haviam caído de paraquedas no primeiro Rock in Rio, sendo uma das poucas bandas consideradas novatas a terem espaço no evento ao lado de dinossauros como Queen, Yes e AC/DC. A histórica performance do trio no festival gerou uma grande procura pelo disco O Passo do Lui (1984) e criou uma tremenda expectativa sobre o que poderia vir depois dele. O sucessor foi Selvagem (1986), que marcou a solidificação do grupo entre os grandes da música brasileira. Durante as gravações e mesmo após elas, a banda bateu o pé em uma série de decisões, enfrentando a gravadora e tendo como principal meta a conquista de total autonomia dentro da EMI. No som, o grupo assumia de vez a sua veia world music, chegando a cantar em inglês na faixa "There's a Party". Também ficava clara a latinização da sonoridade dos Paralamas em faixas como "Alagados" e "Teerã". Em seu terceiro álbum, o grupo encontrava definitivamente a sonoridade rock/dub/batucada que a marcaria pelas três décadas seguintes.  


Dois (Legião Urbana)

O primeiro disco da Legião, lançado em 1984, havia feito relativo sucesso, mas, apesar do grande destaque dado às letras de Renato Russo, musicalmente a banda ainda não havia mostrado nada de muito singular. Essa missão coube então ao segundo disco. Dois, lançado em 1986, era para ter sido um álbum duplo, mas algumas imposições da gravadora acabaram mudando os planos. Mesmo com as ordens que vieram de cima, a banda conseguiu manter viva a essência do disco, em canções como "Eduardo e Mônica", "Índios" e "Daniel na Cova dos Leões". As letras longas, as estruturas musicais que dispensavam o refrão e, sobretudo, as temáticas densas retratando os conflitos do eu com o mundo apareciam pela primeira vez como as grandes características do grupo. Os vocais às vezes murmurados, às vezes esganiçados de Renato provavam que a Legião estava apta a fazer sucesso mesmo sem seguir as fórmulas da indústria, algo que se confirmaria na trajetória da banda a partir dali.


Cabeça Dinossauro (Titãs)

Os Titãs já eram figura carimbada nas rádios brasileiras desde "Sonífera Ilha" (1984), mas a inconsistência musical da banda não deixava claro qual o tipo de som que ela estava perseguindo. Cada disco do grupo continha vários discos dentro de si e a "versatilidade" daquele repertório que passeava entre o punk e o brega fazia com que nenhum público se identificasse totalmente com as obras do conjunto paulista. O terceiro disco era encarado pelo então octeto (sim, a banda tinha oito integrantes) como a grande oportunidade de finalmente mostrar a sua verdadeira face. E Liminha, ex-Mutantes, estreou como produtor do grupo acertando a mão logo de primeira, ajudado, lógico, pela ótima fase que Arnaldo Antunes, Nando Reis, Paulo Miklos e companhia viviam. As referências a inúmeros gêneros musicais (do reggae ao funk) ainda estavam ali, mas havia uma nítida unidade no som dos Titãs, onde o peso, a precisão das letras, a dança de guitarras Bellotto/Fromer e o revezamento frenético entre os vocalistas finalmente encontrava um equilíbrio. Canções como "Polícia", "Bichos Escrotos" e "Homem Primata" nunca mais desapareceriam do imaginário popular e os Titãs abririam ali o caminho para se transformarem em uma das grandes bandas da sua geração.


Vivendo e Não Aprendendo (Ira!)

Depois de terem encontrado o seu verdadeiro rumo, os Titãs se consolidaram como um dos grandes grupos paulistas dos anos 80. Só não podem ser declarados o principal grupo paulista daquela época porque, também em 1986, o Ira! dava continuidade à sua discografia com Vivendo e Não Aprendendo, que sucedia o já maduro Mudança de Comportamento (1985). Edgard Scandurra e Nasi já tinham uma identidade bem definida, e o disco de 1986 deu ao grupo o que lhe faltava: popularidade. "Dias de Luta" (que acabou dando nome ao livro de Ricardo Alexandre que narra a história do rock brasileiro dos anos 80) e "Envelheço na Cidade" estouraram nas rádios logo após o lançamento do disco. "Flores em Você", por sua vez, até trilha de novela global virou, terminando o ano de 1987 como uma das 15 músicas mais executadas do país, um feito inédito para um grupo novato surgido da efervescente e pouco flexível cena independente paulistana.


Longe Demais das Capitais (Engenheiros do Hawaii)

Se os anos 80 reconheceram vida inteligente fora do Eixo Rio-São Paulo-Brasília, isso só ocorreu graças aos Engenheiros do Hawaii. Longe Demais das Capitais foi a estreia da banda em um disco só seu (os engenheiros já haviam participado da excelente coletânea Rock Grande do Sul em 1985) e o título da obra já fazia referência ao desafio que era produzir rock quando você estava geograficamente distante das cidades que detinham o grande poder econômico e as sedes da grande mídia. No repertório do disco, havia "Sopa de Letrinhas" e "Segurança", duas canções que já eram conhecidas por causa da já comentada coletânea gravada no ano anterior. A essas, estavam somadas novas e marcantes composições, como "Crônica" e, principalmente, "Toda Forma De Poder", que se transformou em um dos maiores hits brasileiros da segunda metade da década de 80 e fez com que a banda se tornasse a primeira de origem gaúcha a ter uma grande base de fãs no centro do país. Outras grandes bandas gaúchas viriam depois disso, mas a estreia de Humberto Gessinger e sua trupe sempre será lembrada por ter inaugurado uma concepção de rock gaúcho com potência de alcance nacional.

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.