5 discos para entender o manguebeat

Porto Alegre, Brasil
"Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo". Fred Zero Quatro

As primeiras linhas do manifesto Caranguejos com Cérebro, redigido por Fred Zero Quatro em 1992, poderiam muito bem estar em um livro de geografia, tamanha a sua capacidade de descrever professoralmente a vegetação mais tradicional de Recife. No entanto, o objetivo do texto que percorreu o país naquele início de década não era exatamente dar aula, e sim apresentar alguns dos pilares básicos de um movimento artístico que queria devolver a vida ao Nordeste e que tinha na geografia uma de suas principais inspirações. Para Fred e outros tantos pernambucanos envolvidos com a produção cultural de então (os autodenominados mangueboys/manguegirls) o período de industrialização do Brasil havia reservado ao Nordeste as marcas do descaso, e este descaso havia causado uma paralisação do progresso local. Essa obstrução – social, cultural e econômica – estava simbolizada pelo constante aterramento dos manguezais, que danificava o ecossistema original à medida que a massificação da mídia soterrava cada vez mais a cultura de origem pernambucana, retirando, juntos, o ambiente e a identidade do povo. Muitas mentes criativas acharam que a situação exigia uma resposta, uma atitude que injetasse novos ânimos nas artérias nordestinas. Essa resposta, organizada e construída por centenas de mãos, foi um monstro chamado manguebeat.

5 discos para entender o manguebeat

Ao longo dos anos 90, Chico Science, Fred Zero Quatro, Otto e outros tantos artistas manifestaram em forma de música aquela insatisfação misturada com ímpeto de mudança. O resultado estético era uma mistura de funk, frevo, rap, rock alternativo, punk rock, maracatu e música eletrônica. Esse mosaico tão confuso quanto belo era a voz de um mangue soterrado e ainda assim cheio de vida. O resultado ideológico era algo como um tropicalismo aditivado: enquanto Caetano e os seus haviam captado a cultura internacional para atualizar a produção brasileira, os mangue-creators haviam se apropriado da cultura externa para atualizar-se e também para usá-la como veículo; um veículo que ajudaria a propagar a voz dos obstruídos ao mundo. E essa intenção de gritar a partir do mangue estava claramente exposta no símbolo adotado pelo extenso coletivo ainda em seus primeiros passos: uma antena parabólica cravada na lama.

Da Lama ao Caos (Chico Science & Nação Zumbi , 1994)

Conforme o próprio Fred Zero Quatro comentava no manifesto que apresentou o manguebeat ao mundo, a produção cultural inspirada no mangue já era bastante prolífera em 1992, mas demorou algum tempo para que ela fosse registrada em um disco, porque gravar uma obra àquela altura da história era um privilégio para poucos. A Nação Zumbi foi a primeira banda daquele universo a realizar tal feito após chamar a atenção da Sony com suas apresentações ao vivo. No disco que acabou ganhando as rádios, havia uma sonoridade que a princípio não agradou aos fãs antigos, já que a mixagem da multinacional havia polido muita coisa do que a banda produzira. Ainda assim, foi o suficiente para que o país conhecesse a proposta do movimento no peso das guitarras que sobreviveram aos cortes do produtor, apresentado ali ao lado de percussão de maracatu (que substituía a bateria) e letras ácidas que versavam sobre o abandono nordestino que só seria revertido com a organização coletiva.
 


Samba Esquema Noise (Mundo Livre S/A, 1994)

Quando as frases de Da Lama Ao Caos começaram a aparecer em rádios muito distantes de Recife, o Mundo Livre S/A já estava em estúdio preparando o segundo ato do manguebeat. Samba Esquema Noise, gravado em três meses e lançado ainda em 1994, não teve a recepção da obra da Nação Zumbi, mas foi importante por uma série de motivos. Distribuído pelo selo Banguela Records (que na época pertencia aos Titãs) e produzido por Eduardo Miranda e Charles Gavin, com direito à participação de Nasi (Ira!), o disco integrava o movimento nordestino ao primeiro escalão do rock brasileiro, de onde ele arquitetaria uma verdadeira implosão, influenciando boa parte da produção mainstream pós-94. Não demorou para que os experimentos regionalistas do mangue aparecessem em obras de Fernanda Abreu, Arnaldo Antunes, Paralamas do Sucesso e Sepultura. A antena cravada na lama começava a emitir o seu sinal para terras cada vez mais distantes.



Afrociberdelia (Chico Science & Nação Zumbi, 1996)

Nada pode ser mais noventista do que o segundo disco da Nação Zumbi, tanto na sonoridade quanto em sua arte gráfica que misturava clichês de hip hop e mais parecia uma capa de coletânea dessas que as gravadoras inventavam de tempos em tempos. Mais madura e autônoma, assinando ela própria a produção do trabalho, a Nação Zumbi incluiria a partir deste disco outra dúzia de ritmos no caldeirão que já abalava de forma irreparável os anos 90. Entre as canções do disco, estava o grande hino do movimento, “Manguetown”. O nome da canção, que misturava o regionalismo com a língua inglesa, era o apelido que os mangue-creators haviam dado à cidade de Recife, capital do mangue e local onde estava cravada a antena que àquela altura influenciava quase todo o rock nacional. O disco também foi o último trabalho com Chico Science à frente da formação, uma vez que o líder da banda faleceria no mesmo ano em um acidente de automóvel.



Samba pra Burro (Otto, 1998)

Enquanto alguns críticos se ocupavam fazendo um balanço do manguebeat após a morte de seu principal articulador, os compositores restantes ainda estavam catando lixo, pegando caranguejo e conversando com urubu. Otto, que havia integrado algumas das principais bandas do mangue naquele período inicial, partia em missão solo reproduzindo um som nordestino mais eletrônico e moderno se comparado àqueles lançamentos primordiais. Além de marcar presença mostrando que o movimento estava vivo – sendo o primeiro grande álbum do coletivo após a morte de Chico, serviu para atualizar o gênero antes que ele se tornasse tão monótono quanto o cenário que ele próprio criticava.



Som de Caráter Urbano e de Salão (Sheik Tosado, 1999)

O final dos anos 90 foi o final de uma era na música brasileira, e esse final pode ser interpretado de múltiplas maneiras. Na mais rasa (e bastante adotada) delas, a virada para os anos 2000 simplesmente funcionou como uma claquete que marcou o término das experiências que misturavam os regionalismos com a música contemporânea. Em uma análise mais profunda (recomendada pelo autor que aqui escreve), fica claro que o regionalismo foi tão praticado por aquela geração noventista que a "produção regional" acabou se mesclando organicamente à música pop das gerações seguintes a ponto de não ser mais notada e alardeada. Quer uma prova? Nos anos 2000, Ivete Sangalo, que cantava sobre ritmos baianos, era considerada uma estrela nacional, e não simplesmente uma cantora baiana. A ideia de que a música pop estava se misturando com a regional durou só até o momento em que o muro que separava os dois tipos de música simplesmente deixou de existir. Para o manguebeat, isso ficou sinalizado na obra do grupo Sheik Tosado, que fazia uma síntese da produção pernambucana de até então, mas já não se preocupava em dar continuidade a nada. Preocupava-se apenas em ser, mostrando que a última face do manguebeat era contemporânea e global a ponto de ser considerada simples punk rock por muitos. O mangue enfim fazia parte do Brasil, ao menos na música, e os caranguejos com cérebro haviam cumprido a sua missão.

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