A institucionalização de qualquer filosofia cria um comportamento burro

Rio de Janeiro, Brasil
Por Isabela de Sousa.

Após muitos anos e três álbuns lançados à frente da banda capixaba Solana, Juliano Gauche mergulhou mais fundo num universo próprio à procura de si mesmo e de mil e um significados em seu álbum solo de estreia, o homônimo Juliano Gauche, de 2013. Àquela altura, Gauche estava de mudança do Espírito Santo para São Paulo, com novos ares, novos amigos e novas ideias na cabeça. Em fevereiro de 2016, o cantor e compositor de longa data lançou o seu segundo álbum solo, Nas Estâncias de Dzyan (EAEO Records), que tem o autoconhecimento como base criativa.



O título é uma alusão ao livro "A Doutrina Secreta" (1888), da escritora esotérica Helena Blavatsky, que fala sobre pergaminhos tibetanos com registros da evolução da humanidade. A capa é mais solar que a anterior: se no primeiro álbum Juliano aparecia numa capa escura, em preto e branco, nesta aparecem elementos de uma Placa Pioneer (ilustrações feitas nas naves Pioneer que teoricamente seriam entendidas por extra-terrestres). No primeiro álbum, havia a quase-marcha-fúnebre debochada “Como a Falta de Ar”; no segundo álbum, há o peso de “Animal” e a leveza de “Alegre-se”.

O New Yeah aproveitou a passagem de Juliano pelo Rio de Janeiro para saber mais detalhes e curiosidades sobre o artista e sobre o seu último lançamento.

Como a música apareceu na sua vida?

Minha memória musical mais antiga é a de ouvir música no fusca do meu pai. Dentre as coisas que ele ouvia, as que mais me pegavam eram as canções antigas: The Platters, Elvis, Johnny Rivers, Creedence, Roberto Carlos etc. Quando eu ouvia coisas assim, minha cabeça ia longe. Aquilo parecia coisa de outro mundo. Eu ficava fascinado.

Quais as diferenças entre Espírito Santo/São Paulo e sua ex-banda/carreira solo? A mudança geográfica teve alguma influência nas suas composições?

São Paulo me trouxe o excesso: muita informação, muitas experiências diferentes; a forma como a cidade conduz seus exageros me ensinou muito sobre equilíbrio. Isto acelerou o meu amadurecimento. No Espírito Santo, enquanto eu fazia parte do Solana, eu ainda me sentia confuso e inseguro. Estava sempre sonhando com alguma coisa que o futuro traria. Agora me sinto completo. Como se eu estivesse no lugar certo, na hora certa. Esta segurança está nas composições.

"A forma como São Paulo conduz seus exageros me ensinou muito sobre equilíbrio".

Percebe-se que há muitas referências além-música no seu repertório e as suas músicas geram muita atenção pelo lirismo nas letras. Há um quê de literatura aí? A propósito, o seu sobrenome é Gauche mesmo ou é uma referência a Drummond?

O Gauche veio do que significa ser gauche mesmo. É para que eu sempre me lembre do lado que escolhi. A literatura é a grande mãe da criação. Acho difícil um artista que queira criar alguma coisa sem ter alguma base na literatura. Acho que sou muito mais movido por poetas do que por cantores. Fernando Pessoa, Rimbaud, Baudelaire, Rubem Braga, Walt Whitman... eu não seria o mesmo se não tivesse passado por eles. Até mesmo no mundo da música, sempre respeitei mais os compositores que tinham um pé na poesia.

E por que Nas Estâncias de Dzyan como título do segundo disco?

Um dos primeiros livros que li foi o Poesias Ocultistas, do Fernando Pessoa. Essas coisas sobre o que separa a vida da morte, o tempo da eternidade, o físico do metafísico, eu acho muito instigantes. Estou sempre lendo a respeito dessas coisas. Acho saudável. O que estão fazendo em cima da Bíblia, que particularmente acho um livro lindo, é um desserviço à nossa sociedade. A institucionalização de qualquer filosofia cria um comportamento burro. E os reflexos são essas correntes de ódio com base em fundamentos vazios. Dzyan tem a ver com autoconhecimento, meditação, introspecção... essas coisas que acho bem mais saudáveis do que ser um cego fiel a regras obscuras. E vem do trabalho de uma mulher que teve uma história incrível, a Helena Blavatsky, que bem que merecia ser resgatada neste momento tão importante para o feminismo. O título do disco é um convite a estes temas.

Assim como no álbum anterior, este também tem nove faixas, contendo uma de um compositor diferente. É um formato que te agrada ou foi mera coincidência?

Essas coisas não são tão simples. Eu até pensei em fazer um disco com sete faixas. Até me arrependo um pouco de não ter feito assim. Ficaria mais esquisito, mais direto e original. Mas também poderia ter soado pretensioso. Acabei optando por este formato que se aproximou muito do primeiro disco. Embora o Dzyan pareça a continuação do primeiro trabalho, há uma mudança significativa no meu ponto de vista em relação à vida. Neste disco novo, há menos medo e mais contemplação. Isto está nos arranjos também. Há uma diferença na eletricidade das músicas. Até o ritmo está mais pulsante e hipnótico. Acho que no primeiro disco eu cambaleava na beira do abismo; no Dzyan eu já danço numa perna só.

Como foi esse encontro com a cena de novos artistas paulistanos? Você repete a parceria com Tatá Aeroplano neste disco. Como tem sido essa troca?

Minha ligação com estes artistas novos de São Paulo passa diretamente pelo Tatá Aeroplano. Ele que me apresentou essa turma. Eu sou muito tímido, fechado. Se não fosse por ele eu continuaria na minha. Agradeço muito a ele por isso. Pacientemente ele foi me conduzindo a caminhos novos. Me apresentou o Júpiter Maçã, por exemplo, que se tornou uma grande referência pra mim. E continua me aconselhando como um irmão mais velho. É um grande privilégio ter o Tatá por perto. Não sei qual a minha parte nessa troca. Deve ter alguma coisa, pois nossa amizade já vai pra mais de cinco anos. Mas isso só ele poderia dizer.

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