MPBeat: Música Popular Brasileira para dançar

Rio de Janeiro, Brasil
Já faz um tempo que a música eletrônica é um dos gêneros mais rentáveis do mercado brasileiro. Já faz um tempo também que brincar com elementos eletrônicos deixou de ser prática exclusiva dos DJs. A praticidade cada vez mais acessível dos bits acabou fazendo com que eles começassem a aparecer dentro de outros gêneros que até então pareciam não comportar tamanha audácia. Quer um exemplo? A MPB, que sempre teve a crueza do violão como base, hoje vê nascer uma geração que produz música popular sobre batidas eletrônicas sem abrir mão do samba, da bossa nova e do ziriguidum trazido de outros tempos.



Paulo Camões, cantor e compositor, já possui dois EPs onde colocou em prática a mistura entre tradições brasileira e gêneros como o pop, o nu-dance e o indie. Aos 24 anos, ele acredita que o violão de nylon está tão ligado à sua identidade quanto os bits que desenha com a ajuda dos softwares. Ele ainda comenta que, além de funcionarem como diferencial estético, os elementos eletrônicos muitas vezes facilitam a composição e diminuem os custos de produção. No caso de artistas e bandas independentes, os recursos eletrônicos podem fazer toda a diferença quando o objetivo for alcançar um resultado sofisticado sem precisar de grandes investimentos. "Claro que não é só pela praticidade. Eu também busco a estética. Mas não há como negar que é conveniente produzir assim. Ao abrir um pacote full de um Logic ou de um Live, é como se eu entrasse num grande estúdio, abarrotado de synths e instrumentos à minha disposição, só que tudo dentro do meu computador".



Clara Valente, outra adepta da mistura entre os bits e a MPB, acha que essa inserção de tecnologia ajuda a tirar a música popular do lugar comum. “Vivemos hoje uma escassez de novas ideias musicais. Sinto que melodias, harmonias e letras se repetem muito. Na minha opinião, a tecnologia e a constante mistura de sons de diferentes partes do mundo são alternativas válidas para levar a música a novos caminhos”, reflete.

A cantora carioca também acredita em um processo de "eletronização" da MPB nos próximos anos, e a adição mais constante desses experimentos na música nacional deve diminuir aos poucos o que ainda resta do estranhamento que o público tem diante de propostas menos ortodoxas. “As pessoas têm estranhado, por exemplo, o meu baterista fazer alguns shows usando apenas dispositivos eletrônicos", comenta Clara antes de lembrar que outros experimentos que já foram estranhados pelos ouvintes no passado hoje já são considerados normais. "Ninguém estranha mais quando alguém sobe no palco e toca o teclado com som de piano”. Tudo é uma questão de costume.



Para o produtor, guitarrista, compositor e DJ Diogo Strausz, a união da MPB com a música eletrônica nada mais é que uma evolução natural da música, dessas que ocorrem de tempos em tempos. “Uma vez a MPB já quebrou a barreira que a separava da guitarra elétrica. Por que, tanto tempo depois, não experimentar outras coisas, né?", questiona.

Diogo é da geração faz-tudo. Além de ter produzido artistas como Gal Costa, Clarice Falcão, Laura Lavieri e Alice Caymmi,  ele lançou no início de 2015 o seu primeiro álbum solo, Spectrum vol. 1., sempre explorando novas sonoridades e tendo os bits como ferramenta constante de trabalho.



De bit em bit, a MPB acostuma-se aos poucos com novas sonoridades tanto no trabalho de novos artistas quanto nas experimentações de nomes mais consagrados. O disco mais recente de Céu, Tropix, tem a música eletrônica como gênero aliado e marca definitivamente o afastamento da cantora daquela MPB mais tradicional que marcou o seu início de carreira. Aparentemente, nem os artistas tradicionais habitam o terreno tradicional com tanta convicção, e as experiências de Gal e Caetano em Recanto (2011) dão holofotes a isso.

Seria esse o futuro da MPB? Clara Valente arrisca uma resposta: “acho que o aprimoramento dessas técnicas e a facilidade de cada um de nós fazermos isso em casa, com os nossos notebooks, vai permitir novas texturas e linguagens. Se a MPB de amanhã será orgânica ou eletrônica, não sei dizer. Provavelmente será híbrida, e sinto que o futuro como um todo seguirá essa tendência”.

Contribuiu: Júlia Ourique

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