Parental Advisory: da tentativa de censura a símbolo cool

Porto Alegre, Brasil
O ser humano tem uma capacidade incrível de se acostumar com uma informação quando ela lhe é repetida muitas vezes. Por isso, quem hoje vê aquele cidadão gesticulando em libras antes do início de programas aparentemente normais na TV aberta mal imagina o barulho que a classificação indicativa gerou quando partiu para cima da música pop nos Estados Unidos. Tudo começou quando um grupo de mulheres importantes do país, preocupado com os "valores da família cristã", peitou 30 grandes gravadoras norte-americanas e fez com que o governo sinalizasse todos os álbuns que trouxessem qualquer tipo de baixaria que fosse nociva às crianças da América. Fruto de uma época em que a crescente liberdade de expressão dificultava o controle do que chegava aos ouvidos e olhos da massa, o selo Parental Advisory completou 30 anos em 2015.



Embora os noticiários atuais nos ajudem a ligar a imagem dos Estados Unidos a assuntos como o petróleo e a facilidade para adquirir armas e matar geral, durante muito tempo os país de Barack Obama foi conhecido por sediar uma das maiores comunidades católicas do mundo. Com 25% de sua população dedicada ao culto desta religião, o país moldou uma boa parte de suas leis aos princípios do cristianismo, e a moral católica, quadrada como em qualquer parte do mundo, foi adotada como moral nacional desde os primeiros passos da nação. Impressionantemente, essa moral católica e o show business conviveram em harmonia até a chegada dos anos 80. Nessa década, no entanto, a sexualização da música pop, a partir de personagens como Prince, Madonna e AC/DC, acabou causando um atrito que movimentou a opinião pública.

O ponto de partida de toda a discussão foi justamente uma canção de Prince: "Darling Nikki", que ganhou o país como trilha sonora do filme blockbuster Purple Rain (1984).

Nos Estado Unidos dos anos 80, era muito comum que as crianças consumissem os produtos midiáticos de maior sucesso entre o público adulto. O grande azar de Prince foi que o imenso sucesso de sua música acabou fazendo com que a faixa chegasse aos ouvidos de UMA criança específica: em 1984, a canção sexualmente nonsense do versátil astro pop atingiu os ouvidos da pequena Karenna Gore, filha do então senador Al Gore e da engajada Mary "Tipper" Gore, que já se organizava em atitudes de cunho social com outras mulheres de peso em Washington. A partir do constrangimento de sua filha ao ouvir a cabulosa letra de Prince, Tipper Gore fundaria o polêmico Parents Music Resource Center, um grupo de mulheres da alta sociedade que teria como principal missão moralizar a música pop que havia se transformado em um antro de perdição sem precedentes.



OS GORE, UMA FAMÍLIA INCONVENIENTE, NO INÍCIO DOS ANOS 80: matriarca típica da família tradicional norte-americana, a esposa do senador compraria uma briga com o mundo pop em prol dos bons costumes.
__

O grupo de mulheres cristãs rapidamente passou a exercer pressão sobre gravadoras, lojas de discos e emissoras de TV, tentando, inicialmente, proibir a veiculação e a comercialização de produtos cujo conteúdo pudesse (nas palavras da própria Tipper Gore) "infectar a juventude do mundo". Vendo que a missão era muito ousada e implicaria em bater de frente com os lucros da então imponente indústria fonográfica, a trupe de Tipper Gore deu um passo atrás e sugeriu ao Senado a criação de um selo que ajudasse lojistas e pais a identificarem o conteúdo desaforado nas prateleiras. A proposta já havia sido feita anteriormente pela Associação de Pais e Mestres dos Estados Unidos, mas somente foi levada a sério quando ganhou a mídia na voz da high society norte-americana.

O desejo de Tipper Gore foi da proibição à sinalização, mas a investida mais branda ainda assim gerou mal estar na classe artística. Dee Snider, vocalista do Twisted Sisters, chegou a comparecer ao Senado, onde realizou um discurso histórico em defesa da liberdade de expressão e do heavy metal. John Denver e Frank Zappa tomariam atitude semelhante em episódio que depois seria retratado no filme "Warning: Parental Advisory", de 2002. Tudo em vão. A discussão parecia mesmo uma arena que envolveria somente executivos e forças políticas. E o acordo não tardaria a acontecer.

O POP CONTRA O SENADO: Dee Snider e seu discurso histórico no Senado norte-americano - "O sadomasoquismo e o estupro de minha música estão na cabeça da Sra. Gore".
__
O primeiro selo de alerta aos pais, criado em 1985: a preocupação das famílias católicas só se transformaria em símbolo cool a partir do redesenho em 1990.

As gravadoras tentaram bater o pé, mas logo cederam à pressão feita pelas esposas de senadores, mulheres de ministros e damas do empresariado norte-americano. Tratativas entre as partes dariam origem ao selo "Warning" (imagem ao lado), que evoluiria para um "Parental Advisory", aplicado pela primeira vez sobre o disco de estreia do grupo Danzig (1988) - alardeado pelos moralistas por conta da palavra "whore" (prostituição) na faixa "Possession". As aplicações cada vez mais sem sentido do selo viriam a banalizar o seu uso ainda na primeira metade da década de 90. Simultaneamente, o visual e a mensagem iam ficando cada vez mais comerciais e elegantes. Em 1990, finalmente, o selo ganharia aquele visual famoso que perdura até hoje.

Quando as aparições do Parental Advisory se tornaram frequentes, toda a disputa migrou para o campo da hipocrisia e do jogo político barato. A então rede Wal-Mart, por exemplo, após uma profunda pesquisa de mercado, começou a tirar de suas prateleiras qualquer lançamento que trouxesse o selo no encarte, de olho em uma possível boa popularidade que justificasse o seu posicionamento de "varejo da família". As gravadoras, por sua vez, viram a distribuição do selo sem maiores preocupações, já que, em longo prazo, isso em nada afetaria o fluxo de vendas dos seus grandes artistas. Muito pelo contrário: com o tempo, possuir um Parental Advisory no encarte passou a ser tão sexy que grupos ligados à cena alternativa passaram a adquirir o alerta de forma proposital, transformando a preocupação das famílias católicas em um símbolo da rebeldia noventista que apareceria em discos de bandas badaladas como Nirvana, Blink 182, Green Day, Cypress HillSoundgarden.

A adesivação de grandes nomes da música noventista logo reverteria o Parental Advisory em um selo cool, amplamente utilizado pela indústria fonográfica para identificar os seus artistas mais despojados e, como consequência disso, reaproveitado pela indústria da moda como forma de contrariar os paradigmas mais conservadores. 



BEYONCÉ E JAY Z: nem a maior diva pop do mundo resistiu à tentação de ostentar o "Selo Tipper Gore".
__

30 anos depois, o legado do Parental Advisory é muito mais estético do que moral. Em 2002, o colunista da MTV Jon Wiederhorn escreveu em sua coluna que o selo na verdade foi responsável por atrair os jovens mais desaforados, e que isso explicava o grande sucesso dos álbuns adesivados pelo PMRC. Estudiosos de cultura pop também questionariam por muito tempo a validade de um selo com intenções de censura em um tempo de indefinição midiática, onde a juventude possuía multi-meios para consumir música e era praticamente apaixonada pela sexualidade da MTV, que antecederia ainda uma era de conteúdo livre com a internet popular cada vez mais presente.

Passado o barulho político, neutralizados os oportunistas que fizeram da arte um campo de interesses mil, restou ao Parental Advisory a benção pop, que, como diria Humberto Gessinger, não poupa ninguém.

Na lista negra da high society

Horrorizada pela letra de "Darling Nikki", Tipper Gore reuniu-se com as outras "esposas de Washington" e montou, ainda em 1984, uma lista de 15 sucessos pops que não poderiam conviver com as crianças da América. A lista foi publicada em 1985 e serviu como base para as principais ações do Parents Music Resource Center. A relação é encabeçada, claro, pela música que horrorizou a filha do senador.

ArtistaTítulo da CançãoConteúdo das Letras
1Prince"Darling Nikki"Sexo / masturbação
2Sheena Easton"Sugar Walls"Sexo
3Judas Priest"Eat Me Alive"Sexo
4Vanity"Strap on Robbie Baby"Sexo
5Mötley Crüe"Bastard"Violência
6AC/DC"Let Me Put My Love into You"Sexo
7Twisted Sister"We're Not Gonna Take It"Violência
8Madonna"Dress You Up"Sexo
9W.A.S.P."Animal (Fuck Like a Beast)"Sexo
10Def Leppard"High 'n Dry"Consumo de drogas e álcool
11Mercyful Fate"Into the Coven"Ocultismo
12Black Sabbath"Trashed"Consumo de drogas e álcool
13Mary Jane Girls"In My House"Sexo
14Venom"Possessed"Ocultismo
15Cyndi Lauper"She Bop"Sexo / masturbação

Saiba mais sobre o assunto:
WARNING: PARENTAL ADVISORY. IMDB (em inglês)
WHAT IS THE PARENTAK ADVISORY LOGO. Parental Advisory UK (em inglês)
PAL PROGRAM. Recording Industry Association of America (em inglês)

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.