Se limões falassem, diriam que o rock inglês dos anos 90 começou em 1989

Porto Alegre, Brasil
Por Ricardo Alexandre

A linha que separa os “bons tempos” dos dias cruéis que vivemos é o momento em que passamos a saber demais sobre as coisas. Mais do que pedimos, mais do que conseguimos administrar. Não importa que a violência e a ignorância hoje sejam tanto quanto sempre foram: se a gente não sabia, logo, não existia. Em 1989, o planeta já sentia o cheiro da avalanche de informação que nos soterraria na década de 90 - já havia a acid house, o rock ressuscitado pelos Smiths, o circuito indie, as raves, a renascença psicodélica, as pistas de dança como contracultura etc., pra ficar só na música. Mas quase ninguém catava tudo isso direto nas cenas. Era uma época de filtros. Entre nós e toda essa música, o filtro era uma "bandinha" chamada Stone Roses, que captava coisas nas mais diversas fontes, mastigava e entregava em forma de música pop.

Stone Roses, 1989


Formada em Manchester em 1985, a Stone Roses nasceu da parceria entre dois amigos de infância, o vocalista Ian Brown e o guitarrista John Squire. Ancorada na sede experimental do primeiro e na introspecção virtuosa do segundo, nas letras insolentes e nos vocais sussurrados, a banda produziu alguns trabalhos obscuros até ser contratada pelo selo Silvertone, em 1988. A estréia na nova casa, o single "Elephant Stone" produzido por Peter Hook (New Order), colocou a girar todo aquele caleidoscópio conceitual: batidas dançantes, guitarras espertas, melodias grudentas e um clima de onirismo streetwear. A capa do single, pintada por John Squire inspirado em Jackson Pollock, era outra marca registrada lançada ali (essa capa aí do lado).

O single colou, então seguiram-se shows por toda a Inglaterra, muitos ao ar livre. Outros, em casas como o Haçienda, ao lado de DJs como Paul Oakenfold, vincularam definitivamente o grupo à nascente cultura raver. A cinzenta Manchester virou a colorida "Madchester" ao som de Roses, Happy Mondays e Inspiral Carpets. A mitologia se formava e os Stone Roses ainda nem tinham o seu primeiro álbum. Aí ele veio em 1989.

Produzido pelo veterano John Leckie (que já tinha trabalhado com George Harrison e Pink Floyd), o disco The Stone Roses foi gravado em menos de uma semana. Alternando grooves suculentos ("She Bangs the Drum"), hipnotismos juvenis ("I Wanna Be Adored' e "Waterfall"), melodias flutuantes ("Shoot You Down") e talento para o pop perfeito ("Made of Stone"), o grupo recombinou cacos de toda a boa música pop produzida entre os anos 60 e 80 em um produto fresco, novidadeiro, que reverberava também pelas roupas dos integrantes, por seus cortes de cabelo, sua postura, seus instrumentos e suas capas com pinturas pollockianas - em especial a capa dos limões, que se transformou em uma das imagens mais emblemáticas do rock inglês pós-beatle.

A faixa "Fools Gold", presente apenas na versão americana, foi o auge criativo e comercial da banda e o ápice da "boa tensão" entre o tradicionalismo roqueiro de Squire e a inconsequência sideral de Brown. Os Stone Roses se perderam entre um confuso segundo álbum (Second Coming, gravado nas brechas de uma milionária disputa judicial entre a Silvertone e a Geffen), drogas pesadas, ciúme e, por fim, a saída de John Squire, ironicamente, em 1996.

Onde está a ironia? 1996 foi o ano do britpop ou, em miúdos, o ano em que a cena inglesa aquecida pelo protagonismo dos Stone Roses chegou ao topo das paradas mundiais com Oasis, Blur, Pulp e alguns nomes apenas temporariamente importantes. Os mestres abriram o caminho, mas coube aos fãs a missão de “dominar” o mundo.

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